terça-feira, 25 de setembro de 2007

Na crista da Nouvelle Vague Coreana

Há alguns anos acompanho o cinema de Hong Sang-Soo. O cineasta coreano dirigiu seu primeiro longa-metragem A Pig Fell Into The Wall em 1996 - Prêmio de Melhor Filme em Rotterdam -, e a partir do segundo filme teve a maioria de seus trabalhos selecionados para o Festival de Cannes. Foi com Virgin Stripped Bare by Her que percebi realmente a importância do cinema de Hong Sang-Soo, que seus diálogos aparentemente frugazes são na verdade o embasamento de uma arquitetura complexa de conexões e repetiçoes que minam um trabalho supostamente realista.

Sobre seu mais recente filme, UMA MULHER NA PRAIA, que será exibido hoje pela primeira vez no Festival, ele declarou: “Acredito que todos nós temos um desejo secreto de compreender os acontecimentos que nos rodeiam e o significado da vida (...). Eu procuro observar esses acontecimentos a fim de compreender melhor quem somos. O Cinema me ajuda a fazer isso”. Um cinema de reflexões, com humor, fina ironia e uma câmera incessante, sempre buscando desvendar os mistérios dos personagens. Os que o conhecem, imagino que já tenham comprado ingresso para o filme; os que não o conhecem deveriam se permitir a viagem.

UMA MULHER NA PRAIA (Woman on the Beach)
De Hong Sang-Soo
(Coreia do Sul, 2006)
PANORAMA
Ter, 25/09 - Espaço de Cinema 3 - 13h45 (EC330)
Ter, 25/09 - Espaço de Cinema 3 - 21h30 (EC334)
Sáb, 29/09 - Est Barra Point 1 - 14h15 (BP133)
Sáb, 29/09 - Est Barra Point 1 - 18h45 (BP135)

POR TATIANA LEITE

Quando a liberdade é apenas outra forma de prisão

Cineastas independentes israelenses mostram as situações extremas em que vivem os palestinos.

9 STAR HOTEL mostra a extraordinária luta travada por jovens operários palestinos que cruzam a fronteira de Israel como clandestinos para poder trabalhar, construindo prédios de luxo para os israelenses. O cineasta os acompanha correndo pela fronteira, passando a noite de sobressalto em abrigos e fugindo da polícia. Visto inteiramente do ponto de vista dos clandestinos, nos tornamos testemunhas de sua luta desumana para poder trabalhar e sustentar a família.
Em contraste, a vida dos detentos palestinos na prisão de Estufa parece até luxuosa. Depois de perceber que, ao reservar certa liberdade para os presos políticos a Estufa se tornava bem mais tranqüila e organizada, as autoridades israelenses passaram a permitir que os líderes do Fatah e do Hamas ficassem juntos (cada partido numa célula diferente), concordando ainda em negociar as condições de visitas. A prisão, assim, vai assumindo ares de um claustro, onde todos rezam e discutem questões de doutrina. As eleições para a Autoridade Palestina são acompanhadas com grande interesse – com muitos dos presos despontando como candidatos!

HOTEL 9 ESTRELAS (9 STAR HOTEL)
De Ido Haar
(Israel, 2006)
DOX
Qua, 26/09 - Estação Botafogo 3 - 14h45 (EB332)
Qua, 26/09 - Estação Botafogo 3 - 21h30 (EB335)
Qui, 27/09 - Estação L. Alvim 1 - 16h15 (LA032)
Qui, 27/09 - Estação L. Alvim 1 - 20h00 (LA034)

POR VIK BIRKBECK

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

ALEX, M ou F?

Este é um filme tão especial quando o seu personagem principal: Alex é hermafrodita. Os pais optam por não realizar a cirurgia de mudança de sexo, mas administram hormônios para evitar o aparecimento de características masculinas na criança. A família vive isolada em meio a dunas, até que recebe a visita de um casal de amigos, trazendo com eles o filho, Alvaro – adolescente como Alex.

Primeiro longa-metragem da portenha Lucía Puenzo - que estará presente à sessão desta quarta-feira -, “XXY” recebeu o Prêmio da Crítica no último Festival de Cannes. Para a diretora, o que difere seu filme de outros que já abordaram esse tema é a empatia que a câmera demonstra por Alex. “O personagem não é visto como um freak, porque o filme foge da morbidez o tempo todo. Não caí na tentação de mostrar a deformidade nem na cena de sexo entre Alex e Alvaro; queria representar dois jovens sendo surpreendidos, mas não uma anormalidade. Uma coisa é o público conhecer o personagem, outra é mostrar a sua genitália” – diz Lucía.

Apesar das várias questões propositadamente deixadas em aberto pela diretora, uma ganha resposta intrigante ao final do filme: entre ser homem ou mulher, Alex se liberta da necessidade de escolher.

XXY
De Lucía Puenzo
(Argentina, 2007)
MUNDO GAY
Ter, 25/09 - Est Barra Point 1 - 21h00 (BP120)
Qua, 26/09 - Palacio 2 - 14h00 (PL221)
Qua, 26/09 - Palacio 2 - 20h00 (PL223) ! COM A PRESENÇA DA DIRETORA !
Sex, 28/09 - Estação Botafogo 1 - 23h59 (EB156)

Estepes patagônicas como receita contra a dor

Passa hoje no Espaço de Cinema NASCIDO E CRIADO, o melhor filme da carreira de Pablo Trapero, diretor dos ótimos MUNDO GRÚA e EL BONAERENSE e do simpático FAMÍLIA RODANTE, exibido no Festival do Rio 2005.
Sozinho nas áridas planíces patagônicas, o protagonista reinventa sua vida como se tivesse sido nascido e criado ali. Sobrevive caçando coelhos e lutando contra sua mente que insiste em lembrá-lo que nem sempre sua vida foi assim. Um filme de extrema delicadeza que trata da dor da perda, dos embates contra a memória, da solidão. Trapero diz que a idéia surgiu quando nasceu seu filho e passou a conviver com fantasias assustadoras sobre a perda. Imperdível.

NASCIDO E CRIADO (NACIDO Y CRIADO)

De Pablo Trapero
(Argentina, 2006)
PREMIERE LATINA
Seg, 24/09 - Espaço de Cinema 2 - 19h15 (EC223)
Sex, 28/09 - São Luiz 3 - 16h30 (SL030)
Sex, 28/09 - São Luiz 3 - 21h30 (SL032)
Sáb, 29/09 - Cine Santa - 17h00

POR ANA LUIZA BERABA

Em plena felicidade por exibir A FLORESTA DOS LAMENTOS

O filme ganhou o Grande Prêmio em Cannes este ano e ainda não foi lançado comercialmente, portanto conseguir uma cópia para trazer ao Festival foi um trabalho árduo que durou alguns meses. Explicar aos produtores e distribuidores que todos os cariocas que há poucos anos assistiram Shara estavam sofrendo de grande ansiedade para assistir A Floresta dos Lamentos valeu a pena. O filme está aqui e será exibido hoje pela primeira vez no Festival do Rio.

A diretora japonesa Naomi Kawase tem 39 anos e fez vários documentários geniais e um filme de ficção (Hotaru) superpremiado, antes de realizar sua obra-prima Shara. Ela já foi homenageada com uma retrospectiva no Festival de Locarno e duas vezes indicada para a Palma de Ouro em Cannes. Não existem dúvidas de que o cinema de Naomi seja um dos mais importantes da contemporaneidade.

Se eu fosse você, saía correndo para pegar as chaises longs do Laura Alvin, porque certamente A Floresta dos Lamentos é um filme mágico, que merece ser contemplado com a maior tranqüilidade e conforto possível!

FLORESTA DOS LAMENTOS (The Mourning Forest)
De Naomi Kawase
(Japão, 2007)
PANORAMA
Seg, 24/09 - Estação L. Alvim 1 - 18h (LA018)
Seg, 24/09 - Estação L. Alvim 1 - 19h50 (LA019)
Sáb, 29/09 - Espaço de Cinema 2 - 14h30 (EC251)
Sáb, 29/09 - Espaço de Cinema 2 - 21h30 (EC254)

POR TATIANA LEITE

REGGAE, UM ESTILO DE VIDA


Bogle, um astro jamaicano, é baleado na rua. Trágico e cotidiano, este evento serve como ponto de partida para se desvendar todo o movimento do reggae. MADE IN JAMAICA remonta ao nascimento do gênero musical na Jamaica, nos anos 70, quando pela primeira vez um país do terceiro mundo teve sua voz ouvida em tão larga escala. Ao lado de músicos consagrados como Bunny Wailer e Toots, que insistem na pureza do chamado roots reggae, o filme apresenta uma segunda geração de artistas, com um novo estilo, o dancehall, que já atrai multidões em todo o mundo. Naturalmente influenciado pelo gênero que o precedeu, o dancehall contem a mesma essência religiosa, mas, como o rap, suas letras tratam de sexo, violência e política, principalmente os direitos das mulheres. Ao longo das entrevistas, percebe-se a luta dos músicos para sair de seu gueto nativo e alcançar a fama internacional.

Além dos depoimentos, o filme traz performances clássicas e gravações inéditas, deixando transparecer todo o espírito do movimento jamaicano – que cativou inclusive o próprio diretor do filme. Nascido na França, Jérôme Laperrousaz vem de uma premiada carreira como diretor de comerciais e curtas-metragens, tendo surpreendentemente pouca relação com a Jamaica até antes do filme. “A Jamaica é uma nação com apenas três milhões de pessoas, e ainda assim sua música pode ser ouvida em todos os recantos do mundo. Do ponto de vista criativo, é uma superpotência. Com esse filme, quis mostrar o porquê” – explica o diretor.

MADE IN JAMAICA
De Jérôme Laperrousaz
(França, 2006)
DOX
Seg, 24/09 - Estação Botafogo 3 - 14h45 (EB320)
Seg, 24/09 - Estação Botafogo 3 - 21h30 (EB323)

domingo, 23 de setembro de 2007

DO VERMELHO AO DOURADO...

Formado na Academia de Cinema de Pequim, Zhang Yimou é o maior expoente da chamada Quinta Geração do cinema chinês. Esta Geração, formada por diretores cinéfilos, emergiu nos anos oitenta de uma China em grave crise econômica. Sofrendo desde seus primeiros filmes forte repressão do Estado Chinês, foi acolhida por público e critica internacional. O SORGO VERMELHO, primeiro longa de Yimou - Urso de Ouro em Berlin -, foi um dos filmes que permitiram que o talento dessa Geração fosse propagado nos quatro cantos do mundo, e atraiu investidores estrangeiros que financiaram suas produções subseqüentes. ESPOSAS E CONCUBINAS, LANTERNAS VERMELHAS e A HISTORIA DE QIU JIU foram filmes que trouxeram a Zhang enorme reconhecimento internacional e que também lançaram a atriz Gong Li, uma das musas do cinema contemporâneo.

A partir de um determinado ponto, Yimou passou a fazer filmes mais melosos ou edificantes, para finalmente engatar em superproduções como O CLÃ DAS ADAGAS VOADORAS, que esteticamente são belíssimos e que criaram um novo gênero no cinema chinês, mas que não deixam de anunciar a busca por um cinema mais comercial. Sua mais recente superprodução, A MALDIÇÃO DA FLOR DOURADA é um dos destaques do Foco China, país merecidamente homenageado no Festival do Rio este ano. Como não poderia deixar de ser, o filme é garantia de prazer estético para qualquer espectador!

A MALDIÇÃO DA FLOR DOURADA (Curse of the golden flower)
De Zhang Yimou
(China, 2006)
FOCO CHINA
Ter, 25/09 - Leblon 1 - 16h30 (LB018)
Ter, 25/09 - Leblon 1 - 22h (LB020)

POR TATIANA LEITE

ALÉM DE TUDO

Adrian Belic nasceu e cresceu nos Estados Unidos, numa casa onde o pai falava servo-croata e a mãe, tcheco. Ele e o irmão, Roko, só foram aprender inglês ao entrar na escola. Aos nove anos, começou a fazer filmes com o irmão e o amigo Christopher Nolan (o mesmo do BATMAN e MEMENTO). Diz ele que, ao ver Guerra nas Estrelas com sete anos de idade, soube que o que queria na vida era fazer cinema. Adrian e Roko fizeram seu primeiro filme profissional, GENGHIS BLUES, ao terminarem o colégio. Este documentário, sobre músicos singulares de um país do qual ninguém nunca tinha ouvido falar - Tuva - nas montanhas no norte da Mongólia, correu mundo arrebatando prêmios até ser nomeado para o Oscar de Melhor Documentário em 2000. Numa das muitas exibições do filme, apareceu um médico ex-militar, Ed Artis, que começou a contar histórias tão incríveis que os irmãos marcaram uma entrevista com ele. O que era para ser uma conversa de meia-hora durou seis horas e meia. Quando finalmente o médico foi embora, os irmãos concluíram que se a metade do que ele dizia fosse verdade, teriam o próximo filme.

No dia seguinte foram procurados por Dr. James Laws, corroborando a história que viria a ser ALÉM DO DEVER. Depois do sucesso de GENGHIS BLUES, Adrian achou que fazer o segundo filme seria mais fácil, mas não era bem assim. Os primeiros dois anos foram financiados por empréstimos pessoais, enquanto Adrian correu mundo atrás dos Knightsbridge International – três ex-militares sessentões numa missão que reunia elementos de Madre Teresa de Calcutá com Indiana Jones. Ajuda humanitária sim, mas só com aventura. Dizem os três cavaleiros que eles não se metem em política, não são evangélicos e são independentes de qualquer ajuda externa. No entanto, eles aparecem no filme atravessando rios e montanhas, levando caminhões de remédios, comida e barracas para os lugares mais distantes da terra – Afeganistão, Burma, Filipinas. Diz Adrian que um dos aspectos mais interessantes de ALÉM DO DEVER é que o filme é bem recebido tanto por jovens quanto por associações de terceira idade, Rotary clube, militares ou universitários. Os militantes de esquerda se espantam ao ver ex-militares aposentados fazendo coisas que eles sonham mas nunca tiveram coragem de fazer. Nesse sentido, o filme vai criando pontes e funciona como inspiração especial para as ONGs e organizações de voluntariado.

Quem vê Adrian Belic circulando pelo Festival do Rio se encanta com o seu bigode singular, inspirado nos músicos de Genghis Blues, e nos brinquedos que traz consigo. Criança, gostava muito de brincar com os bonecos de ação inspirados nos filmes de Guerra nas Estrelas e Indiana Jones. Ao procurar algo para promover a estréia de ALÉM DO DEVER em Nova Iorque , Adrian convidou um amigo cinegrafista para criar três bonecos com as feições do Ed Artis, James Laws e Walt Ratterman, os três heróis-personagens do documentário. Aonde vai, Adrian leva os bonecos, que acharam uma casa temporária numa vitrine exposta na Tenda do Festival do Rio em Copacabana.

Adrian Belic fica no Rio até o final do Festival e se dispõe a falar sobre o seu filme para grupos ou organizações interessados.
Contato: wadirum1@aol.com

ALÉM DO DEVER (Beyond the Call)
De Adrian Belic
(EUA, 2006)
FRONTEIRAS
Seg, 24/09 - Caixa Cultural 1 - 16h30
Ter, 25/09 - Estação Botafogo 3 -12h30 (EB325)
Ter, 25/09 - Estação Botafogo 3 - 19h15 (EB328)

POR VIK BIRKBECK

EVO MORALES BEM DE PERTO

COCALERO é um registro minucioso dos últimos meses da campanha política de Evo Morales, período em que o candidato percorreu toda a Bolívia – sempre de jeans e tênis – angariando os votos que o transformariam no primeiro presidente indígena da história do país. O documentário também desvenda o funcionamento da organização sindical por traz de Evo, através da figura central de Leonilda Zurita, líder dos chamados “cocaleros”.
Mas este filme não é apenas sobre a recente reviravolta boliviana, e sim um retrato histórico de toda a América Latina, com suas culturas marcadas por tensão e descrença, conforme explica o diretor Alejandro Landes: “Evo é a síntese da mestiçagem da região - um índio aymará que virou sindicalista para defender o cultivo da coca ante a política norte-americana, gerando uma onda nacionalista que o levou à condição de salvador”.
Além disso, qualquer semelhança com Entreatos, de João Moreira Salles, e Peões, de Eduardo Coutinho, não será mera coincidência: Landes – que nasceu no Brasil, mas com apenas um ano mudou-se com os pais para o Equador – diz ter se inspirado fortemente nas obras dos cineastas brasileiros para realizar este que é seu primeiro filme. “O Evo é um sindicalista, como Lula; há uma parte do filme com a temática indígena, mas o coração da história é o sindicato dos plantadores de coca, o que remete a Peões. Por outro lado, COCALERO apresenta um Evo muito íntimo, muito de perto, como se pode ver em Entreatos. Quero levar o filme ao Brasil e mostrá-lo para o João e para o Coutinho”.

COCALERO
De Alejandro Landes
(EUA, 2006)
DOC LATINOS
Dom, 23/09 - Espaço de Cinema 2 - 14h45 (EC215)
Dom, 23/09 - Espaço de Cinema 2 - 21h45 (EC218)
Seg, 24/09 - Caixa Cultural 1 - 19h00
Qua, 26/09 - Caixa Cultural 1 - 16h30
Qua, 03/10 - Cine Santa - 17h00

ÚLTIMA CHANCE DE CAMINHAR PARA A VIDA!

Neste domingo, 23/09, às 16:00 no Ciné Glória, (Memorial Getulio Vargas) é a última chance de ver um delicado documentário que adentra ao mundo sofrido das mulheres etíopes camponesas. Diferente do interior do Brasil, com sua forte cultura de parteiras para assistir os partos dos mais pobres, a Etiópia apresenta um índice alarmante de mulheres que sofrem danos físicos com o parto. Como as mulheres na quase totalidade de países em desenvolvimento, às etíopes cabe todo o trabalho pesado de buscar água, lenha... As meninas carregam pesos imensos desde a mais tenra idade e ainda são casadas aos dez ou doze anos de idade. Ao engravidar, muitas vezes a pequena estatura delas não agüenta o parto. Além do sofrimento de perder o neném, muitas ficam incontinentes. Em seguida são rejeitadas pela família e pela comunidade, que acreditam que elas estão amaldiçoadas.

Em 1974 um casal de ginecologistas ingleses, trabalhando na Etiópia desde 1959, criou o Fistula Hospital em Addis Abeba, especializado em tratar dessas mulheres. Desde então realizam aproximadamente 1500 cirurgias reparativas por ano. Mary Olive Smith - que está no Rio para apresentar o seu filme! - leu uma reportagem sobre o hospital no New York Times e começou uma pesquisa que a levou até o interior da Etiópia em busca de mulheres que procuravam tratamento. Além das duas mulheres escolhidas pela sua equipe no próprio hospital, ela achou mais três, que foram acompanhadas no longo caminho por um país com poucas estradas e transporte público precário. Uma dessas meninas tinha aguardado seis anos no ponto de ônibus para conseguir a quantia (aproximadamente R$ 40) necessária para a viagem. Uma vez que chegam ao hospital, as mulheres encontram não somente o atendimento médico de que tanto precisam, mas uma comunidade calorosa que sofre dos mesmos problemas, num ambiente limpo e tranqüilo, propicio à recuperação.

Surpreendente no filme é a candura com que elas contam as suas histórias e a intimidade que atravessa as barreiras de língua e cultura. Como diz a diretora: "As questões de gravidez e parto são tão universais que a comunicação é fácil, e no caso dessas mulheres o isolamento e a rejeição que sofreram foram tão extremos que elas ficam felizes apenas com a possibilidade de serem ouvidas. Também o ambiente do hospital já é tão diferente para elas, que nós (a equipe) com nossas máquinas, éramos apenas mais um elemento dessa estranheza". A possibilidade de voltar à vida também levou a um questionamento para três das cinco heroínas do filme, que, depois da cura, não quiseram retornar às mesmas condições de opressão.

CAMINHANDO PARA A VIDA, além da bela trilha sonora etíope, é uma chance única de conhecer essa outra realidade.

POR VIK BIRKBECK

sábado, 22 de setembro de 2007

DIRETO DE HAVANA

Em 1999, na primeira edição do Festival do Rio, entrei por acaso numa sessão de um filme cubano chamado LA VIDA ES SILBAR. Saí do Estação Botafogo extasiada pelas imagens de arquivo do grande pianista Bola de Nieve e de Benny Moré, que funcionavam como consciência de personagens peculiares na Havana do fim do século. Pessoas desmaiando ao ouvir palavras tabus como sexo e burocracia, buscas por Cubas desaparecidas pelo tempo, promessas quebradas por juras de amor. LA VIDA ES SILBAR apontava um novo caminho no cinema cubano, crítico porém extremamente afetivo e delicado. Esse estilo foi reforçado pelo delicioso SUITE HAVANA (ou SWEET HAVANA?), exibido no Festival do Rio de 2004. Foi, portanto, com imensa expectativa que esperamos esse MADRIGAL, que será exibido hoje às 21:45 na sala 2 do Espaço.

Fernando Pérez, o diretor, está aqui. Deixou maturando um projeto sobre José Martí, herói da independência cubana, que será filmado em dezembro e desembarcou no Rio para nos apresentar Madrigal, "um filme deliberadamente artificioso, estranho, que não parece um filme cubano", nas palavras do próprio. O filme estreou no Festival de Berlim provocando polêmica. Para o diretor, é um filme "para se amar ou se odiar intensamente".

Esperamos vocês para compartilhar conosco o privilégio dessa sessão.

MADRIGAL
De Fernando Pérez
(Cuba / Espanha)
22/09 - 14:45 - Espaço de Cinema 2
22/09 - 21:45 - Espaço de Cinema 2
24/09 - 15:30 - Estação Ipanema 1
24/09 - 20:00 - Estação Ipanema 1
28/09 - 19:15 - Cine Santa

POR ANA LUIZA BERABA

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

DICAS DESTA SEXTA-FEIRA, 21/09

Entre Tarantinos, Chabrols e Park Chan Wooks (OBS: ainda não vendido para o Brasil), alguns filmes merecem a atenção dos espectadores.
Vivendo no medo. No primeiro longa-metragem do diretor Bui Thac Chuyen, o personagem principal, Tai, vive de desarmar bombas dos campos do Vietnã pós-guerra para vendê-las a fim de sustentar suas duas famílias. Uma comedia de humor negro, que aborda a temática da guerra com muita leveza e de forma bastante inovadora.
Síndromes e um século. Os fans do diretor tailandês Apichatpong Weerasethakul, que teve seus filmes anteriores (Blissfully Yours e Tropical Malady) exibidos em prévias edições do Festival, vão ficar deliciados. Apitchatpong brinca com as noções de memória, do amor... Cada cena do filme retrata com beleza imagens de lugares frugais. O filme é hipnótico e imperdível.
Não percam também o bizarro e anárquico As bonecas safadas de Dasepo e o exuberante Sonhos de deserto.

VIVENDO NO MEDO
Living in Fear
De Bui Thac Chuyen
EXPECTATIVA
Sex, 21/09 - Est Barra Point 1 - 14h15 (BP101)
Sex, 21/09 - Est Barra Point 1 - 18h45 (BP103)
Sáb, 22/09 - Espaço de Cinema 3 - 12h15 (EC308)
Sáb, 22/09 - Espaço de Cinema 3 - 20h00 (EC312)

SÍNDROMES E UM SÉCULO
Syndromes and a Century
De Apichatpong Weerasethakul
PANORAMA
Sex, 21/09 - Estação Ipanema 2 - 22h00 (IP205)
Sáb, 22/09 - Est Barra Point 2 - 16h45 (BP206)
Dom, 23/09 - Espaço de Cinema 1 - 14h30 (EC114)
Dom, 23/09 - Espaço de Cinema 1 - 19h00 (EC116)

AS BONECAS SAFADAS DE DASEPO
Dasepo Naughty Girls
De Lee Jae-yong
LONAS CULTURAIS
Sex, 21/09 - Espaço de Cinema 1 - 23h30 (EC106)
Dom, 23/09 - Palacio 2 - 14h00 (PL209)
Dom, 23/09 - Palacio 2 - 19h00 (PL211)

SONHOS DE DESERTO
Desert Dreams
De Zhang Lu
EXPECTATIVA
Sex, 21/09 - Estação L. Alvim 1 - 17h45 (LA003)
Dom, 23/09 - Espaço de Cinema 3 - 13h30 (EC316)
Dom, 23/09 - Espaço de Cinema 3 - 21h30 (EC320)
Seg, 24/09 - Est Barra Point 1 - 18h45 (BP115)

POR TATIANA LEITE

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

CUBA LIVRE

O diretor cubano Fernando Pérez é uma figura particular dentro do cinema daquele país. Tendo começado como telegrafista do jornal diário do ICAIC (Instituto Cubano de Arte e Indústria cinematográfica), ele hoje ostenta rara liberdade para filmar praticamente tudo o que quer dentro da Ilha. E embora lance mão deste privilégio, mostrando-se crítico em relação ao regime comunista, o diretor também deixa transparecer em sua obra a afetuosidade e o saudosismo que sente pelo país – e pelos ideais – que nunca abandonou.
Foi assim com Suite Havana – premiado em San Sebastián, Havana e Gramado em 2003 –, que antecede a Madrigal. Porém, neste novo filme, as linhas temática e, principalmente, formal parecem ter sofrido certo rompimento, segundo o próprio diretor. “Se o público vinha de uma expectativa cômoda, esperando uma seqüência, Madrigal será no mínimo desconcertante, porque é totalmente oposto a Suite Havana, indo muito além na busca que sempre fiz por uma linguagem deliberadamente artificia” – diz Pérez, referindo-se a filmes mais antigos como Madagascar, de 1998, e Viver é assobiar, de 1994.
Madrigal é dedicado ao diretor francês René Clair, cujo filme As grandes manobras (1955) foi de grande importância para Pérez. “Uma vez li que Clair teve de mudar o final de seu filme porque os produtores acharam que o público não iria gostar. Então a idéia por trás de Madrigal foi recriar uma trama bastante similar à de As grandes manobras, mas com o final original de Clair” – explica o cubano.
Para um diretor que consegue trabalhar mesmo sob uma ditadura, o fato de um colega ter tido o filme censurado parece especialmente ultrajante. “Tanto no cinema como na vida, meu princípio é não seguir um só caminho; transito por zonas às vezes inseguras, com o afã de ser original. Quem é o (protagonista do filme) Javier e qual o seu objetivo ao transformar tudo em literatura? Acho que Madrigal fala de algo comum a muitos criadores, que fazem da própria vida fonte de inspiração”.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

A LENTE NEGRA DE STANLEY NELSON

A Mostra Stanley Nelson presta uma homenagem a este americano que, aos 52 anos, é um dos maiores nomes do documentário em atividade no mundo. Como diretor e produtor, seus filmes já conquistaram praticamente todos os prêmios da categoria, com destaque para O assassinato de Emmett Till, de 2003, que lhe valeu, entre outros, o Prêmio George Foster Peabody, maior honraria do jornalismo televisivo. Em 2004, Nelson ainda ganharia o Prêmio CINE Leadership, pelo conjunto da obra. Ao lado da esposa – Marcia Smith, roteirista da maioria de seus filmes –, ele é co-fundador da Firelight Media, em Nova York, organização sem fins lucrativos dedicada ao registro de pessoas, lugares e culturas que não são representados pela grande mídia.

Stanley vem ao Festival para a exibição de A imprensa negra americana: um combate sem tréguas, que será seguida pelo debate:
A IMAGEM NO ESPELHO: A IMPRENSA NEGRA E O NEGRO NA IMPRENSA
Além do diretor do filme, o evento contará com a presença de:
– Angélica Basthi, membro da COJIRA - Comissão de Jornalistas para Igualdade Racial do Sindicato dos Jornalistas do RJ e Assessora de Imprensa da ONG Justiça Global;
– Julio Tavares, professor de Pós-graduação em Antropologia da UFF.
SEX, 28/09 – 18H30 – C.C. JUSTIÇA FEDERAL

FILMES DIRETO DA ORELHA

A POCKET FILMS é o reconhecimento, pelo Festival do Rio, da importância da produção cinematográfica feita através da telefonia celular.
Estes filmes – todos inéditos no Brasil – possuem, para além da diversidade temática, uma estética extremamente particular, que os destaca não apenas entre as inúmeras atrações do Festival, mas também dentro de toda a história do cinema. Afinal, pelo modo como foram concebidos, estes filmes simplesmente não existiriam há dez ou cinco anos. Mas não se trata, aqui, de uma tecnologia sofisticada ou de difícil acesso, ao contrário; essa nova geração de filmes se utiliza de um aparelho que a cada dia se torna mais popular. E, com isso tudo, também é curioso lembrar o fato aparentemente óbvio de que o telefone não perdeu sua função primordial – precisando, ainda, ser desligado durante as sessões.

A POCKET FILMS está dividida em três programas: o primeiro e o segundo trazem, respectivamente, os melhores curtas-metragens de 2006 e 2007, e o terceiro apresenta três filmes do francês Alain Fleischer, diretor da École du Fresnoy, centro de pesquisa em Multimídia onde os estudantes utilizam largamente o telefone celular. Para o professor, a telefonia celular com câmera questiona toda a imagem moderna desde a invenção da fotografia. “Pela primeira vez na comunicação universal, o veículo da voz é ao mesmo tempo o da imagem, sem que esta seja a sua função principal. Assim, podemos dizer que o celular é um objeto híbrido que produz uma imagem clandestina”.
E Alain ainda vai mais longe: “Como o celular possui uma face para a voz e outra para a imagem, ele não filma o que eu vejo, mas o que está à minha esquerda ou direita – de algum modo, é a orelha que faz o enquadramento! É preciso que eu me vire para filmar o que ouvi, o que leva algum tempo e gera suspense. Se Hitchcock fosse vivo, tenho certeza de que ele faria um filme onde o celular fosse o principal objeto do mistério, ou até a arma do crime!”.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

NOVIDADE NO FRONT

NOTÍCIAS DO FRONT é o espaço interativo dentro do Festival do Rio dedicado exclusivamente àquelas "jóias raras" que o grande público ainda precisa descobrir. São filmes aparentemente pequenos, mas que constituem a própria essência de todo o Festival, que o colocam numa posição conceituada entre os maiores eventos de cinema no mundo. Atualizado pela Coordenação Internacional do Festival do Rio, NOTÍCIAS DO FRONT pela primeira vez vai oferecer ao público informações detalhadas sobre os filmes internacionais, trazendo ainda destaques particulares dentro da vasta programação do Festival, incluindo debates, entrevistas e oficinas.Você também participa enviando dicas de filmes e sugestões para os próximos anos. Manifeste-se: a sessão já vai começar.